Eu só quero um segundo da tua atenção. Agora. Porque se demorar um segundo, já não será mais preciso. Um segundo antes de eu girar a chave da porta da minha casa no início da noite gelada desta terça-feira eu jamais imaginava que um segundo depois, uma recordação ainda não estampada se estilhaçaria em pedaços de vidros pelo chão. E hoje, no segundo depois do giro da chave, foi que eu percebi que em um segundo pode-se fazer várias coisas, dizer, se arrepender, surpreender, morrer, ou que às vezes, a inércia do cérebro humano não é capaz de ter uma reação mais ágil que um segundo.
Minha falta de destreza derrubou no chão, hoje, um porta-retrato bastante estimado, que ainda estava sem foto, porque o registro que o estamparia deveria ser muito especial: o afresco de momentos de felicidade, que ainda não foram revelados, tão distantes neste longínquo planalto que hoje eu habito.
Primeiro percebi o som dos cacos, que ecoaram durante um segundo apenas. E no chão já jazia a expressão ‘amigos para sempre’ dispersa feito quebra-cabeça. Creio que seguirei por um bom tempo recuperando cada pó, que um dia foi areia, do vidro, espelho da minha vida. Reflexo que hoje não mostra a pintura da aquarela que eu rabisquei.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Seção textos antigos
Os esquecidos na gaveta
Frango ao molho de manchete
Os detalhes é que apaixonam. A sutileza da arte de cozinhar, o alho picado, o grão de tempero, o cheiro. Uma das coisas que a faculdade me ensinou foi não passar fome. A façanha que a vida te doutrina em fazer a limonada, se ela lhe der limões. Foram muitos bifes e arroz queimados, carnes salgadas, massas grudentas. Como tudo na vida, a gente aprende devagarzinho e não há orgulho maior do que sentir que a criação se aperfeiçoa a cada dia, a cada detalhe.
Assim também é o jornalismo. A cada texto se tem a noção de que se sabe fazer melhor, a cada linha. Um texto redondo é como um filho bonito posto no mundo. Tá bom, eu sei, ainda não coloquei filho no mundo e acredito que a sensação deva ser outra. Mas enfim... É muito saudável quando se percebe que ao longo de cada tortuoso dia a sua criação se torna mais esculpida, vira foto da capa, vira manchete.
Mas, falávamos de comida. Minhas receitas, hoje em dia, já não são um desastre. Tudo começa no riscar do fósforo, que exala uma fumaça que me deixa sem ar por um segundo. A chama azul ofusca, e depois que encontro novamente o foco do meu astigmatismo, despejo o fio de óleo no fundo da panela. O pedaço do que um dia foi uma galinha ou galo, escorrega na mão, deixando a palma picante, tingida de curry. O que mais gosto é o que mais exala, o alho. Os grandes pedaços devem sentir o fio dos dentes, depois. O frigir começa, respingando meu fogão de asas com gordura.
E aos poucos, o cheiro invade a cozinha, a sala, a casa inteira, perfumando as roupas jogadas na cama, se transformando em melodia do silêncio que se projeta, rebate nas paredes e retorna com força ainda maior. Um prato e dois talheres: a charge da solidão.
A degustação deve ser rápida, para que a imagem do almoço em família, com muitos gritos, bacia de salada sendo passada para lá e para cá, por cima das cabeças, o pedido para encher o copo de refrigerante, o tilintar de dezenas de garfos afoitos, não invada totalmente a minha cabeça.
Deito na cama, fecho os olhos, canto uma canção qualquer que me faça suspirar, sinto nas mãos a fragrância condimentada e, no alto, vejo a revoada de origamis multicoloridos que se movem lentamente, me fazendo companhia.
Um dia frio, um bom lugar pra ler um livro e o pensamento lá em você...
Chove na terra da hospitalidade. O céu cinza só me avisa que estou longe de quem dividiria o guarda-chuva comigo. A massa de ar polar traz com ela uma nostalgia, em puxar para fora do armário os cachecóis e gorros. Poderia estar lendo um livro, sim. Preenchendo os espaços vazios da minha cabeça com conteúdo e inspiração.
Mas não. A minha frente, a velha TV exibe o que eu chamaria de suprassumo da futilidade, Big Brother Brasil. Confesso que acompanhei o programa em seu desenrolar, por mais irreal e falso que ele me pareça. Pois a preguiça de fazer qualquer outra coisa que me exigiria sair do conforto da cama era maior do que eu...(...)...
Frango ao molho de manchete
Os detalhes é que apaixonam. A sutileza da arte de cozinhar, o alho picado, o grão de tempero, o cheiro. Uma das coisas que a faculdade me ensinou foi não passar fome. A façanha que a vida te doutrina em fazer a limonada, se ela lhe der limões. Foram muitos bifes e arroz queimados, carnes salgadas, massas grudentas. Como tudo na vida, a gente aprende devagarzinho e não há orgulho maior do que sentir que a criação se aperfeiçoa a cada dia, a cada detalhe.
Assim também é o jornalismo. A cada texto se tem a noção de que se sabe fazer melhor, a cada linha. Um texto redondo é como um filho bonito posto no mundo. Tá bom, eu sei, ainda não coloquei filho no mundo e acredito que a sensação deva ser outra. Mas enfim... É muito saudável quando se percebe que ao longo de cada tortuoso dia a sua criação se torna mais esculpida, vira foto da capa, vira manchete.
Mas, falávamos de comida. Minhas receitas, hoje em dia, já não são um desastre. Tudo começa no riscar do fósforo, que exala uma fumaça que me deixa sem ar por um segundo. A chama azul ofusca, e depois que encontro novamente o foco do meu astigmatismo, despejo o fio de óleo no fundo da panela. O pedaço do que um dia foi uma galinha ou galo, escorrega na mão, deixando a palma picante, tingida de curry. O que mais gosto é o que mais exala, o alho. Os grandes pedaços devem sentir o fio dos dentes, depois. O frigir começa, respingando meu fogão de asas com gordura.
E aos poucos, o cheiro invade a cozinha, a sala, a casa inteira, perfumando as roupas jogadas na cama, se transformando em melodia do silêncio que se projeta, rebate nas paredes e retorna com força ainda maior. Um prato e dois talheres: a charge da solidão.
A degustação deve ser rápida, para que a imagem do almoço em família, com muitos gritos, bacia de salada sendo passada para lá e para cá, por cima das cabeças, o pedido para encher o copo de refrigerante, o tilintar de dezenas de garfos afoitos, não invada totalmente a minha cabeça.
Deito na cama, fecho os olhos, canto uma canção qualquer que me faça suspirar, sinto nas mãos a fragrância condimentada e, no alto, vejo a revoada de origamis multicoloridos que se movem lentamente, me fazendo companhia.
Um dia frio, um bom lugar pra ler um livro e o pensamento lá em você...
Chove na terra da hospitalidade. O céu cinza só me avisa que estou longe de quem dividiria o guarda-chuva comigo. A massa de ar polar traz com ela uma nostalgia, em puxar para fora do armário os cachecóis e gorros. Poderia estar lendo um livro, sim. Preenchendo os espaços vazios da minha cabeça com conteúdo e inspiração.
Mas não. A minha frente, a velha TV exibe o que eu chamaria de suprassumo da futilidade, Big Brother Brasil. Confesso que acompanhei o programa em seu desenrolar, por mais irreal e falso que ele me pareça. Pois a preguiça de fazer qualquer outra coisa que me exigiria sair do conforto da cama era maior do que eu...(...)...
quarta-feira, 9 de março de 2011
Música de Trabalho
Legião Urbana
Composição: Renato Russo
Sem trabalho eu não sou nada
Não tenho dignidade
Não sinto o meu valor
Não tenho identidade
Mas o que eu tenho
É só um emprego
E um salário miserável
Eu tenho o meu ofício
Que me cansa de verdade
Tem gente que não tem nada
E outros que tem mais do que precisam
Tem gente que não quer saber de trabalhar
Mas quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar p'rá casa pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
De todo o meu cansaço
Nossa vida não é boa
E nem podemos reclamar
Sei que existe injustiça
Eu sei o que acontece
Tenho medo da polícia
Eu sei o que acontece
Se você não segue as ordens
Se você não obedece
E não suporta o sofrimento
Está destinado a miséria
Mas isso eu não aceito
Eu sei o que acontece
Mas isso eu não aceito
Eu sei o que acontece
E quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar p'rá casa pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
Do pouco que não temos
Quem sabe esquecer um pouco
De tudo que não sabemos
Composição: Renato Russo
Sem trabalho eu não sou nada
Não tenho dignidade
Não sinto o meu valor
Não tenho identidade
Mas o que eu tenho
É só um emprego
E um salário miserável
Eu tenho o meu ofício
Que me cansa de verdade
Tem gente que não tem nada
E outros que tem mais do que precisam
Tem gente que não quer saber de trabalhar
Mas quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar p'rá casa pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
De todo o meu cansaço
Nossa vida não é boa
E nem podemos reclamar
Sei que existe injustiça
Eu sei o que acontece
Tenho medo da polícia
Eu sei o que acontece
Se você não segue as ordens
Se você não obedece
E não suporta o sofrimento
Está destinado a miséria
Mas isso eu não aceito
Eu sei o que acontece
Mas isso eu não aceito
Eu sei o que acontece
E quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar p'rá casa pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
Do pouco que não temos
Quem sabe esquecer um pouco
De tudo que não sabemos
Depois das cinzas
Faz um bom tempo que não sento para escrever aqui no blog. Ultimamente tenho andado com uma preguiça intelectual bem grande. Nunca mais li nada interessante e muito menos escrevi algo de que eu pudesse me orgulhar. Cheguei a iniciar um post, mas a preguiça impediu-me de terminá-lo, e notícia velha só serve mesmo para embalar peixe. Mas acho que utilizarei alguns trechos deste texto antigo, coisas que eu queria dizer e que não devem ser jogadas na lixeira do PC.
Na escuridão do meu quarto, a luz do computador atrai um pernilongo que se divertirá no meu corpo assim que eu dormir. Daqui alguns minutos será quarta de cinzas, o primeiro dia do ano para boa parte dos pagãos, cristãos, agnósticos, crentes. Enfim, todos que esperam o ano todo por essa festa, onde irão recarregar as energias ou apenas descarregar o que faz mal.
Sabe, eu acho meus textos tão banais ultimamente. Falo sempre das mesmas coisas. Por exemplo, do meu trabalho que não é tudo o que a faculdade pintou, da minha solidão, da minha falta de vontade para tudo, do meu desgosto.
Queria poetizar, escrever a simplicidade da vida e fazer alguém se emocionar. Terminar um texto e lê-lo vinte vezes depois, de tão fantástico que ele saiu. Colocar no papel cada detalhe, para que quem leia consiga sentir o cheiro do ar que mistura mato orvalhado e poeira, ou o gosto que a saudade coloca na boca da gente. Ando velha e seca, improdutiva. Será que todo poeta tem uma fase de entressafra na plantação de letrinhas? Será que está chovendo demais para florescer a criatividade e a destreza mental? Ora, eu poeta! Sou tão pequenininha, tão ínfima.
Bom, mesmo assim, eu não consigo falar de outra coisa que não seja a minha vida. Se um dia me perguntarem qual é a minha linha, meu tema preferido para escrever, direi que sou eu mesma. Por mais que talvez, às vezes, eu não me pareça interessante suficiente para estar no papel, eu sei que sou capaz de desenhar a minha existência de uma maneira simples, sincera, instigante, meramente atraente e digna para que vocês, caros leitores, doem um pouquinho do seu tempo para me ler. Não só meus escritos, mas a minha pessoa também. E tirar as suas próprias conclusões, é claro.
Então, minhas viagens de Ouro e Prata estão acrescentando um monte para a minha bagagem cultural. Não sei ao certo se eu sou uma pessoa que inspira confiança, ou se as pessoas que frequentam uma rodoviária têm por instinto iniciar uma conversa trivial, sem mesmo eu ter perguntado nada. Fico sempre quietinha, na sala de espera. O cara que cuida lá a sala de espera – não sei qual é bem certa a função dele – sabe sempre qual é o meu destino. Ele abre a porta, me olha e diz: Palmeira das Missões! O motorista já virou meu amigo, dizendo que já fazia algumas semanas que eu não viajava com ele.
Os viajantes entram no local, sentam e já vão logo começando o bombardeio de perguntas. ‘Para onde você está indo?’, dizem eles. Assim conheci um caminhoneiro que transporta cargas valiosíssimas e que teme passar com cigarros ao lado do Complexo do Alemão.
Conheci o carinha que trabalha na gráfica do Correio do Povo, que me deu uma aula de impressão e que ganha mais que eu que trabalho para que as páginas do jornal não saiam em branco. Este tem apenas nove dedos e adora astrologia e me deu uma aula sobre o assunto também. O primeiro passo é sempre deles, mas daí meu instinto de repórter investigativa vem à tona e eu começo uma batelada de questões.
Neste último final de semana conheci um senhor aposentado que me contou que estava indo para o desfile de carnaval no Rio de Janeiro, que tinha parentes na cidade e que estes já haviam comprado seu ingresso que custou R$ 1mil. Ah, ele me disse também que só carregava R$ 500 na carteira, para o caso de ele ser assaltado não levarem tudo o que ele tem, coitado.
E é isso. Sigo meu rumo agora, pois a quarta de cinzas é o primeiro dia do ano para nós brasileiros. Sigo, convivendo com a arte de tocar a realidade com a ponta dos dedos, entremeio a narizes empinados, pobres descalços, corpos sem vida, denúncias, fontes oficiais e populares. A sutileza da vida encapada com recortes de jornais. A inconstância de estar em todos os lugares, envolvido com temas distintos e muitas histórias de vida emocionantes. A pressão do fechamento das páginas, que imponentes e limpas nos desafiam. E claro, a insatisfação com os proventos.
O ano ‘inicia’ e as mazelas continuam as mesmas. E a minha vida banal também.
Na escuridão do meu quarto, a luz do computador atrai um pernilongo que se divertirá no meu corpo assim que eu dormir. Daqui alguns minutos será quarta de cinzas, o primeiro dia do ano para boa parte dos pagãos, cristãos, agnósticos, crentes. Enfim, todos que esperam o ano todo por essa festa, onde irão recarregar as energias ou apenas descarregar o que faz mal.
Sabe, eu acho meus textos tão banais ultimamente. Falo sempre das mesmas coisas. Por exemplo, do meu trabalho que não é tudo o que a faculdade pintou, da minha solidão, da minha falta de vontade para tudo, do meu desgosto.
Queria poetizar, escrever a simplicidade da vida e fazer alguém se emocionar. Terminar um texto e lê-lo vinte vezes depois, de tão fantástico que ele saiu. Colocar no papel cada detalhe, para que quem leia consiga sentir o cheiro do ar que mistura mato orvalhado e poeira, ou o gosto que a saudade coloca na boca da gente. Ando velha e seca, improdutiva. Será que todo poeta tem uma fase de entressafra na plantação de letrinhas? Será que está chovendo demais para florescer a criatividade e a destreza mental? Ora, eu poeta! Sou tão pequenininha, tão ínfima.
Bom, mesmo assim, eu não consigo falar de outra coisa que não seja a minha vida. Se um dia me perguntarem qual é a minha linha, meu tema preferido para escrever, direi que sou eu mesma. Por mais que talvez, às vezes, eu não me pareça interessante suficiente para estar no papel, eu sei que sou capaz de desenhar a minha existência de uma maneira simples, sincera, instigante, meramente atraente e digna para que vocês, caros leitores, doem um pouquinho do seu tempo para me ler. Não só meus escritos, mas a minha pessoa também. E tirar as suas próprias conclusões, é claro.
Então, minhas viagens de Ouro e Prata estão acrescentando um monte para a minha bagagem cultural. Não sei ao certo se eu sou uma pessoa que inspira confiança, ou se as pessoas que frequentam uma rodoviária têm por instinto iniciar uma conversa trivial, sem mesmo eu ter perguntado nada. Fico sempre quietinha, na sala de espera. O cara que cuida lá a sala de espera – não sei qual é bem certa a função dele – sabe sempre qual é o meu destino. Ele abre a porta, me olha e diz: Palmeira das Missões! O motorista já virou meu amigo, dizendo que já fazia algumas semanas que eu não viajava com ele.
Os viajantes entram no local, sentam e já vão logo começando o bombardeio de perguntas. ‘Para onde você está indo?’, dizem eles. Assim conheci um caminhoneiro que transporta cargas valiosíssimas e que teme passar com cigarros ao lado do Complexo do Alemão.
Conheci o carinha que trabalha na gráfica do Correio do Povo, que me deu uma aula de impressão e que ganha mais que eu que trabalho para que as páginas do jornal não saiam em branco. Este tem apenas nove dedos e adora astrologia e me deu uma aula sobre o assunto também. O primeiro passo é sempre deles, mas daí meu instinto de repórter investigativa vem à tona e eu começo uma batelada de questões.
Neste último final de semana conheci um senhor aposentado que me contou que estava indo para o desfile de carnaval no Rio de Janeiro, que tinha parentes na cidade e que estes já haviam comprado seu ingresso que custou R$ 1mil. Ah, ele me disse também que só carregava R$ 500 na carteira, para o caso de ele ser assaltado não levarem tudo o que ele tem, coitado.
E é isso. Sigo meu rumo agora, pois a quarta de cinzas é o primeiro dia do ano para nós brasileiros. Sigo, convivendo com a arte de tocar a realidade com a ponta dos dedos, entremeio a narizes empinados, pobres descalços, corpos sem vida, denúncias, fontes oficiais e populares. A sutileza da vida encapada com recortes de jornais. A inconstância de estar em todos os lugares, envolvido com temas distintos e muitas histórias de vida emocionantes. A pressão do fechamento das páginas, que imponentes e limpas nos desafiam. E claro, a insatisfação com os proventos.
O ano ‘inicia’ e as mazelas continuam as mesmas. E a minha vida banal também.
domingo, 23 de janeiro de 2011
Brain Storm
Está é a quarta vez que inicio o texto desta postagem. Hoje não é um bom dia para o ‘toró de ideias’, mas sinto uma vontade imensa de me expressar. Gostaria que alguém me ouvisse. Então se eu gritar, me de um colo e me faça dormir. Quero sossego.
Atualmente minha vida anda sem muitas emoções, como uma cena congelada em preto e branco. Os dias passam e a vida viaja no piloto automático. Não temos curvas no caminho, é apenas uma estrada reta, deserta e quente. E dizem ainda que ela será muito longa.
Durante esta vida já fui vários personagens. Já atuei em vários palcos. No início era cinza, falava pouco, ouvia atrás das portas. Era inverno, frio e chuvoso. Nessa época eu era poeta e via desenhos na tinta descascada da parede de madeira. As vozes em todas as bonecas eram as mesmas – a minha. Mas, o sol foi timidamente entrando pelas frestas da casa e aos poucos outras vozes preencheram o espaço inerte.
Foi então que veio a estação dos lírios, com temperaturas amenas e dias salutares. Existia receio, pois os ventos mudaram bruscamente e eu não tinha um porão para proteção. Em uma tarde branda, embaixo de uma bergamoteira, peguei no sono e de repente comecei a sonhar...(...)... Era óbvio que era perfeito demais. As fotos coloridas desbotam com o tempo, todo bom observador sabe disto. Mas como eu sempre estava aérea demais para perceber, só fui compreender a efemeridade quando uma bergamota podre caiu na minha cara e eu acordei.
Porém, o verão anunciou sua chegada, e ele conseguiu maquiar o roxo no meu rosto. O calor trouxe consigo o ápice da juventude. Introspectiva ainda, mas aos poucos a palavra cativava timidamente.
Hoje é outono, apesar de não parecer ser. O verão partiu e a estrada acabou. Infelizmente com o passar das luas as pessoas mudam muito. Eu também mudei. O filme está sem cor. Em contrapartida, agora as consoantes perambulam, rebatem nas paredes e ecoam. O meu grito rola estridente pelas pedras da calçada. A bergamoteira está desfolhada e eu infeliz. Sentada embaixo dos galhos secos eu espero pela estação das flores...(...)...
'Moça, Olha só, o que eu te escrevi
É preciso força pra sonhar e perceber
Que a estrada vai além do que se vê
Sei, que a tua solidão me dói
E que é difícil ser feliz
Mais do que somos todos nós
Você supõe o céu...
Põe mais um na mesa de jantar
Porque hoje eu vou "praí" te ver
E tira o som dessa TV
Pra gente conversar...
E avisa que eu só vou chegar
No último vagão
É bom te ver sorrir
Deixa eu ver à moça
Que eu também vou atrás
E a banda diz: - assim é que se faz.
Atualmente minha vida anda sem muitas emoções, como uma cena congelada em preto e branco. Os dias passam e a vida viaja no piloto automático. Não temos curvas no caminho, é apenas uma estrada reta, deserta e quente. E dizem ainda que ela será muito longa.
Durante esta vida já fui vários personagens. Já atuei em vários palcos. No início era cinza, falava pouco, ouvia atrás das portas. Era inverno, frio e chuvoso. Nessa época eu era poeta e via desenhos na tinta descascada da parede de madeira. As vozes em todas as bonecas eram as mesmas – a minha. Mas, o sol foi timidamente entrando pelas frestas da casa e aos poucos outras vozes preencheram o espaço inerte.
Foi então que veio a estação dos lírios, com temperaturas amenas e dias salutares. Existia receio, pois os ventos mudaram bruscamente e eu não tinha um porão para proteção. Em uma tarde branda, embaixo de uma bergamoteira, peguei no sono e de repente comecei a sonhar...(...)... Era óbvio que era perfeito demais. As fotos coloridas desbotam com o tempo, todo bom observador sabe disto. Mas como eu sempre estava aérea demais para perceber, só fui compreender a efemeridade quando uma bergamota podre caiu na minha cara e eu acordei.
Porém, o verão anunciou sua chegada, e ele conseguiu maquiar o roxo no meu rosto. O calor trouxe consigo o ápice da juventude. Introspectiva ainda, mas aos poucos a palavra cativava timidamente.
Hoje é outono, apesar de não parecer ser. O verão partiu e a estrada acabou. Infelizmente com o passar das luas as pessoas mudam muito. Eu também mudei. O filme está sem cor. Em contrapartida, agora as consoantes perambulam, rebatem nas paredes e ecoam. O meu grito rola estridente pelas pedras da calçada. A bergamoteira está desfolhada e eu infeliz. Sentada embaixo dos galhos secos eu espero pela estação das flores...(...)...
'Moça, Olha só, o que eu te escrevi
É preciso força pra sonhar e perceber
Que a estrada vai além do que se vê
Sei, que a tua solidão me dói
E que é difícil ser feliz
Mais do que somos todos nós
Você supõe o céu...
Põe mais um na mesa de jantar
Porque hoje eu vou "praí" te ver
E tira o som dessa TV
Pra gente conversar...
E avisa que eu só vou chegar
No último vagão
É bom te ver sorrir
Deixa eu ver à moça
Que eu também vou atrás
E a banda diz: - assim é que se faz.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Carolina
Composição: Chico Buarque
Carolina, nos seus olhos fundos guarda tanta dor, a dor de todo esse mundo
Eu já lhe expliquei, que não vai dar, seu pranto não vai nada ajudar
Eu já convidei para dançar, é hora, já sei, de aproveitar
Lá fora, amor, uma rosa nasceu, todo mundo sambou, uma estrela caiu
Eu bem que mostrei sorrindo, pela janela, ah que lindo
Mas Carolina não viu...
Carolina, nos seus olhos tristes, guarda tanto amor, o amor que já não existe,
Eu bem que avisei, vai acabar, de tudo lhe dei para aceitar
Mil versos cantei pra lhe agradar, agora não sei como explicar
Lá fora, amor, uma rosa morreu, uma festa acabou, nosso barco partiu
Eu bem que mostrei a ela, o tempo passou na janela e só Carolina não viu.
*Errata:
Onde se le Carolina, le-se Priscila.
Composição: Chico Buarque
Carolina, nos seus olhos fundos guarda tanta dor, a dor de todo esse mundo
Eu já lhe expliquei, que não vai dar, seu pranto não vai nada ajudar
Eu já convidei para dançar, é hora, já sei, de aproveitar
Lá fora, amor, uma rosa nasceu, todo mundo sambou, uma estrela caiu
Eu bem que mostrei sorrindo, pela janela, ah que lindo
Mas Carolina não viu...
Carolina, nos seus olhos tristes, guarda tanto amor, o amor que já não existe,
Eu bem que avisei, vai acabar, de tudo lhe dei para aceitar
Mil versos cantei pra lhe agradar, agora não sei como explicar
Lá fora, amor, uma rosa morreu, uma festa acabou, nosso barco partiu
Eu bem que mostrei a ela, o tempo passou na janela e só Carolina não viu.
*Errata:
Onde se le Carolina, le-se Priscila.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Retrospectiva 2010
Tá certo que já viramos o ano e as retrospectivas são feitas sempre em dezembro. Mas são raras as vezes que tenho disposição de escrever coisas despretensiosas para o blog, pois passo em frente ao computador várias horas ao dia. Deve ser por isso que não chego a enlouquecer sem internet neste cubículo que me impede de ver o céu. A frieza do computador me cansa; sempre que posso prefiro o calor do ser humano.
2010 iniciou com um desafio imenso. Defesa de TCC logo na primeira semana. Passei o dia sem conseguir comer de tanto nervoso. A faculdade chegava ao fim e o medo de ficar na vala dos desempregados aumentava. O dia foi tenso até o momento da defesa, mas depois de muito ouvir de meus avaliadores – a redenção. 9,2 foi a nota e um grande peso das minhas costas foi embora. Agora seria só dormir de manhã, fazer TCC II de tarde e à noite curtir o restinho que ainda nos sobrava da vida fácil de dependente dos pais. A vida que todo mundo pediu a Deus e que acaba antes de a gente valorizar.
Merecidas férias e depois mais uma mudança de logradouro em Fredephalen Westerico. Quase que nossas tralhas rolaram de cima do caminhãozinho morro acima. Um cortiço minúsculo, mas grande era o sentimento fraterno daquela família dividida pela Nilo Cerutti. O semestre iniciou e muitas foram as experiências vividas por aquela grande família. Almoços de domingo, churrascos de sexta à noite, festas no sábado, filminhos, toneladas de batatas fritas, tardes de outono reverenciando a nossa senhora do bolinho de chuva que da tudo errado, bingo da baixada, vizinhos gente boa, quilômetros percorridos em ladeiras. E por aí se vão muitas lembranças.
O El Niño se fez presente e a chuva que impediu-nos de percorrer as longas distâncias na zona rural da cidade, devido ao nosso TCC II, nos permitiu tardes tranquilas de sono. Mas mal sabia eu que a vida real estava por vir, tão antes do que eu esperava. Nas raras tréguas da chuva, partíamos ao encontro de nossos agricultores, estrada de terra a dentro. Em seguida, começou o laboro de verdade, redigir as matérias. Mal sabia eu que um dia eu teria que escrever mais de uma em um único dia. Se tivéssemos mais um dia para adiar o término do texto, sentávamos e deixávamos o trabalho para depois. De grão em grão eis que nasceu a Lida Campeira, depois de passar por uma semana de intenso stress que fazia a mente da gente parar e enlouquecer por alguns segundos. Uma revista que deu orgulho e trabalho – para beber as 50 latinhas de Brahma em homenagem as suas 50 páginas. Breves e últimas férias. E depois, mais uma defesa. Unidas da Lida Campeira, 10, nota 10! Infelizmente a vida acadêmica havia acabado. Com chave de ouro, mas acabado.
Mais uma vez uma mudança e desta vez não era só de logradouro, era de CEP também. A grande família iria se dissipar, cada uma para um lado. Mais uma vez a busca pelas caixas de papelão, repartir os pratos, copos, enrolar em jornal velho, carregar o caminhão e partir, de vez.
Entremeio a tudo isso, jornadas insones de envios de currículos, pois a pensão acabaria e a gente tinha que seguir com as próprias pernas, mãos e cabeças. Até que um dia um telefonema cria chances de novos ares, algo novo. Um teste em um jornal em Carazinho e três meses de experiência estavam garantidos. Um suposto emprego antes mesmo de erguer o canudo. Até que para quem nunca havia trabalhado e que não acreditava que pudesse ser boa naquilo que diziam que sabia fazer, estava ótimo.
Nova cidade, novas pessoas, a velha distância permanecia e a vida de gente grande, que enxerga o chapéu ao invés da jiboia e do elefante. O mundo das pessoas frias, que moram sozinhas em seus apartamentos de um quarto, que almoçam comida congelada, que andam pelas ruas distraídas demais com seus problemas, a ponto de deixar passar a vida desapercebida.
O fim do ciclo se anunciou em 14 de agosto. O brilho e incertezas pulsavam nos olhares de todos os formandos. Mas como o dia 31 de dezembro é sempre igual a primeiro de janeiro, não poderia ser diferente com o 15 de agosto. Agora só resta deixar bem guardado na memória cada segundo especial vivido nestes quatro anos.
E a vida seguia. Trabalho puxado, nada daquela fantasia que se cria na faculdade de que jornalistas irão mudar o mundo, que formarão as opiniões, que derrubarão a ditadura, nada. Uma breve estadia na casa de parentes e enfim, a casa ‘própria’. Porque jornalistas não tem casa própria no segundo mês de trabalho de suas vidas. Mas era minha, minhas coisas, lavar a louça quando quisesse. Mas, tudo isso tem um preço, e não é o preço do aluguel. É o da solidão. Nunca soube ser sozinha, nem mesmo quando eu tinha 13 anos e adorava ficar em casa só durante a tarde. Achava aquilo um máximo, colocava o LP do Kiss no último volume. Mas eu nunca era sozinha como agora.
Os dias passaram, a rotina crescia como planta e a solidão começou a ser suportável. Volta e meia o trem cortava a cidade anunciando sua passagem, acordando a todos e era só virar o lado da cama e voltar a dormir. Encontrei um pouco de prazer no trabalho, que para mim é o que me mantém aqui. Gostar do que faço é fundamental. Agradeço por não ter ouvido meu avô e feito enfermagem.
O fim do ano foi se anunciando e a vida, por enquanto segue a mesma, sem nenhuma mudança prevista. 2010 foi um ano de muitas alterações, de experiências intensas e de saber retirar o melhor daqueles que me rodeavam e que eu demoraria a rever.
2011. Um novo ano, uma nova década, um novo ciclo. Não comi sete uvas, não pulei ondas, não usei o amarelo que deveria, nem guardei o ramo de arruda. Apenas mentalizei a paz. Desejo que este ano eu tenha uma qualidade de vida superior a que tive no fim do ano que passou. Não pedi nada além disso, pois acho injusto. A única coisa que não depende de nós é a paz.
2010 iniciou com um desafio imenso. Defesa de TCC logo na primeira semana. Passei o dia sem conseguir comer de tanto nervoso. A faculdade chegava ao fim e o medo de ficar na vala dos desempregados aumentava. O dia foi tenso até o momento da defesa, mas depois de muito ouvir de meus avaliadores – a redenção. 9,2 foi a nota e um grande peso das minhas costas foi embora. Agora seria só dormir de manhã, fazer TCC II de tarde e à noite curtir o restinho que ainda nos sobrava da vida fácil de dependente dos pais. A vida que todo mundo pediu a Deus e que acaba antes de a gente valorizar.
Merecidas férias e depois mais uma mudança de logradouro em Fredephalen Westerico. Quase que nossas tralhas rolaram de cima do caminhãozinho morro acima. Um cortiço minúsculo, mas grande era o sentimento fraterno daquela família dividida pela Nilo Cerutti. O semestre iniciou e muitas foram as experiências vividas por aquela grande família. Almoços de domingo, churrascos de sexta à noite, festas no sábado, filminhos, toneladas de batatas fritas, tardes de outono reverenciando a nossa senhora do bolinho de chuva que da tudo errado, bingo da baixada, vizinhos gente boa, quilômetros percorridos em ladeiras. E por aí se vão muitas lembranças.
O El Niño se fez presente e a chuva que impediu-nos de percorrer as longas distâncias na zona rural da cidade, devido ao nosso TCC II, nos permitiu tardes tranquilas de sono. Mas mal sabia eu que a vida real estava por vir, tão antes do que eu esperava. Nas raras tréguas da chuva, partíamos ao encontro de nossos agricultores, estrada de terra a dentro. Em seguida, começou o laboro de verdade, redigir as matérias. Mal sabia eu que um dia eu teria que escrever mais de uma em um único dia. Se tivéssemos mais um dia para adiar o término do texto, sentávamos e deixávamos o trabalho para depois. De grão em grão eis que nasceu a Lida Campeira, depois de passar por uma semana de intenso stress que fazia a mente da gente parar e enlouquecer por alguns segundos. Uma revista que deu orgulho e trabalho – para beber as 50 latinhas de Brahma em homenagem as suas 50 páginas. Breves e últimas férias. E depois, mais uma defesa. Unidas da Lida Campeira, 10, nota 10! Infelizmente a vida acadêmica havia acabado. Com chave de ouro, mas acabado.
Mais uma vez uma mudança e desta vez não era só de logradouro, era de CEP também. A grande família iria se dissipar, cada uma para um lado. Mais uma vez a busca pelas caixas de papelão, repartir os pratos, copos, enrolar em jornal velho, carregar o caminhão e partir, de vez.
Entremeio a tudo isso, jornadas insones de envios de currículos, pois a pensão acabaria e a gente tinha que seguir com as próprias pernas, mãos e cabeças. Até que um dia um telefonema cria chances de novos ares, algo novo. Um teste em um jornal em Carazinho e três meses de experiência estavam garantidos. Um suposto emprego antes mesmo de erguer o canudo. Até que para quem nunca havia trabalhado e que não acreditava que pudesse ser boa naquilo que diziam que sabia fazer, estava ótimo.
Nova cidade, novas pessoas, a velha distância permanecia e a vida de gente grande, que enxerga o chapéu ao invés da jiboia e do elefante. O mundo das pessoas frias, que moram sozinhas em seus apartamentos de um quarto, que almoçam comida congelada, que andam pelas ruas distraídas demais com seus problemas, a ponto de deixar passar a vida desapercebida.
O fim do ciclo se anunciou em 14 de agosto. O brilho e incertezas pulsavam nos olhares de todos os formandos. Mas como o dia 31 de dezembro é sempre igual a primeiro de janeiro, não poderia ser diferente com o 15 de agosto. Agora só resta deixar bem guardado na memória cada segundo especial vivido nestes quatro anos.
E a vida seguia. Trabalho puxado, nada daquela fantasia que se cria na faculdade de que jornalistas irão mudar o mundo, que formarão as opiniões, que derrubarão a ditadura, nada. Uma breve estadia na casa de parentes e enfim, a casa ‘própria’. Porque jornalistas não tem casa própria no segundo mês de trabalho de suas vidas. Mas era minha, minhas coisas, lavar a louça quando quisesse. Mas, tudo isso tem um preço, e não é o preço do aluguel. É o da solidão. Nunca soube ser sozinha, nem mesmo quando eu tinha 13 anos e adorava ficar em casa só durante a tarde. Achava aquilo um máximo, colocava o LP do Kiss no último volume. Mas eu nunca era sozinha como agora.
Os dias passaram, a rotina crescia como planta e a solidão começou a ser suportável. Volta e meia o trem cortava a cidade anunciando sua passagem, acordando a todos e era só virar o lado da cama e voltar a dormir. Encontrei um pouco de prazer no trabalho, que para mim é o que me mantém aqui. Gostar do que faço é fundamental. Agradeço por não ter ouvido meu avô e feito enfermagem.
O fim do ano foi se anunciando e a vida, por enquanto segue a mesma, sem nenhuma mudança prevista. 2010 foi um ano de muitas alterações, de experiências intensas e de saber retirar o melhor daqueles que me rodeavam e que eu demoraria a rever.
2011. Um novo ano, uma nova década, um novo ciclo. Não comi sete uvas, não pulei ondas, não usei o amarelo que deveria, nem guardei o ramo de arruda. Apenas mentalizei a paz. Desejo que este ano eu tenha uma qualidade de vida superior a que tive no fim do ano que passou. Não pedi nada além disso, pois acho injusto. A única coisa que não depende de nós é a paz.
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