quinta-feira, 12 de maio de 2011

Tormento

Desde pequena ouço do meu sábio avô a expressão ‘tormento’, que ele usa para nomear as netas de maneira carinhosa. Porém, o que me faz vir aqui, agora, ainda com a toalha enrolada à cabeça nos úmidos cabelos é o conceito antônimo a esse, usado pelo meu avô.
Existe um tipo de tormento que instiga todo mundo, ou pelo menos, assim eu acredito, pois se não for desta maneira que acontece, preciso ir a um analista imediatamente. Diariamente, passamos e sentimos vários tormentos. E o que torna difícil de tocá-los e curá-los é que na maioria das vezes nem sabemos por que nascem, atormentam e fenecem, assim, de repente.
Angústias e anseios que rebentam e, automaticamente, buscam desenfreadamente uma válvula de escape, uma forma de desafogar. Mesmo que seja comer desesperadamente, dançar na solidão da casa enlouquecidamente ou gritar freneticamente. É imprescindível cuspir, exorcizar, e não amordaçar. E, como se não tivesse acontecido nada, o tormento foge, evapora, se apaga e, só de depor aqui, já nem lembro mais qual o tormento pesado que me fez sair do banho quente rapidamente para escrever. Pronto, era isso. Tormento acabou de bater a porta daqui de casa e ir embora. Vou secar os cabelos...(...)...

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Um segundo

Eu só quero um segundo da tua atenção. Agora. Porque se demorar um segundo, já não será mais preciso. Um segundo antes de eu girar a chave da porta da minha casa no início da noite gelada desta terça-feira eu jamais imaginava que um segundo depois, uma recordação ainda não estampada se estilhaçaria em pedaços de vidros pelo chão. E hoje, no segundo depois do giro da chave, foi que eu percebi que em um segundo pode-se fazer várias coisas, dizer, se arrepender, surpreender, morrer, ou que às vezes, a inércia do cérebro humano não é capaz de ter uma reação mais ágil que um segundo.
Minha falta de destreza derrubou no chão, hoje, um porta-retrato bastante estimado, que ainda estava sem foto, porque o registro que o estamparia deveria ser muito especial: o afresco de momentos de felicidade, que ainda não foram revelados, tão distantes neste longínquo planalto que hoje eu habito.
Primeiro percebi o som dos cacos, que ecoaram durante um segundo apenas. E no chão já jazia a expressão ‘amigos para sempre’ dispersa feito quebra-cabeça. Creio que seguirei por um bom tempo recuperando cada pó, que um dia foi areia, do vidro, espelho da minha vida. Reflexo que hoje não mostra a pintura da aquarela que eu rabisquei.

Seção textos antigos

Os esquecidos na gaveta

Frango ao molho de manchete
Os detalhes é que apaixonam. A sutileza da arte de cozinhar, o alho picado, o grão de tempero, o cheiro. Uma das coisas que a faculdade me ensinou foi não passar fome. A façanha que a vida te doutrina em fazer a limonada, se ela lhe der limões. Foram muitos bifes e arroz queimados, carnes salgadas, massas grudentas. Como tudo na vida, a gente aprende devagarzinho e não há orgulho maior do que sentir que a criação se aperfeiçoa a cada dia, a cada detalhe.
Assim também é o jornalismo. A cada texto se tem a noção de que se sabe fazer melhor, a cada linha. Um texto redondo é como um filho bonito posto no mundo. Tá bom, eu sei, ainda não coloquei filho no mundo e acredito que a sensação deva ser outra. Mas enfim... É muito saudável quando se percebe que ao longo de cada tortuoso dia a sua criação se torna mais esculpida, vira foto da capa, vira manchete.
Mas, falávamos de comida. Minhas receitas, hoje em dia, já não são um desastre. Tudo começa no riscar do fósforo, que exala uma fumaça que me deixa sem ar por um segundo. A chama azul ofusca, e depois que encontro novamente o foco do meu astigmatismo, despejo o fio de óleo no fundo da panela. O pedaço do que um dia foi uma galinha ou galo, escorrega na mão, deixando a palma picante, tingida de curry. O que mais gosto é o que mais exala, o alho. Os grandes pedaços devem sentir o fio dos dentes, depois. O frigir começa, respingando meu fogão de asas com gordura.
E aos poucos, o cheiro invade a cozinha, a sala, a casa inteira, perfumando as roupas jogadas na cama, se transformando em melodia do silêncio que se projeta, rebate nas paredes e retorna com força ainda maior. Um prato e dois talheres: a charge da solidão.
A degustação deve ser rápida, para que a imagem do almoço em família, com muitos gritos, bacia de salada sendo passada para lá e para cá, por cima das cabeças, o pedido para encher o copo de refrigerante, o tilintar de dezenas de garfos afoitos, não invada totalmente a minha cabeça.
Deito na cama, fecho os olhos, canto uma canção qualquer que me faça suspirar, sinto nas mãos a fragrância condimentada e, no alto, vejo a revoada de origamis multicoloridos que se movem lentamente, me fazendo companhia.

Um dia frio, um bom lugar pra ler um livro e o pensamento lá em você...
Chove na terra da hospitalidade. O céu cinza só me avisa que estou longe de quem dividiria o guarda-chuva comigo. A massa de ar polar traz com ela uma nostalgia, em puxar para fora do armário os cachecóis e gorros. Poderia estar lendo um livro, sim. Preenchendo os espaços vazios da minha cabeça com conteúdo e inspiração.
Mas não. A minha frente, a velha TV exibe o que eu chamaria de suprassumo da futilidade, Big Brother Brasil. Confesso que acompanhei o programa em seu desenrolar, por mais irreal e falso que ele me pareça. Pois a preguiça de fazer qualquer outra coisa que me exigiria sair do conforto da cama era maior do que eu...(...)...

quarta-feira, 9 de março de 2011

Música de Trabalho

Legião Urbana
Composição: Renato Russo

Sem trabalho eu não sou nada
Não tenho dignidade
Não sinto o meu valor
Não tenho identidade
Mas o que eu tenho
É só um emprego
E um salário miserável
Eu tenho o meu ofício
Que me cansa de verdade
Tem gente que não tem nada
E outros que tem mais do que precisam
Tem gente que não quer saber de trabalhar
Mas quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar p'rá casa pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
De todo o meu cansaço
Nossa vida não é boa
E nem podemos reclamar
Sei que existe injustiça
Eu sei o que acontece
Tenho medo da polícia
Eu sei o que acontece
Se você não segue as ordens
Se você não obedece
E não suporta o sofrimento
Está destinado a miséria

Mas isso eu não aceito
Eu sei o que acontece
Mas isso eu não aceito
Eu sei o que acontece
E quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar p'rá casa pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
Do pouco que não temos
Quem sabe esquecer um pouco
De tudo que não sabemos

Depois das cinzas

Faz um bom tempo que não sento para escrever aqui no blog. Ultimamente tenho andado com uma preguiça intelectual bem grande. Nunca mais li nada interessante e muito menos escrevi algo de que eu pudesse me orgulhar. Cheguei a iniciar um post, mas a preguiça impediu-me de terminá-lo, e notícia velha só serve mesmo para embalar peixe. Mas acho que utilizarei alguns trechos deste texto antigo, coisas que eu queria dizer e que não devem ser jogadas na lixeira do PC.
Na escuridão do meu quarto, a luz do computador atrai um pernilongo que se divertirá no meu corpo assim que eu dormir. Daqui alguns minutos será quarta de cinzas, o primeiro dia do ano para boa parte dos pagãos, cristãos, agnósticos, crentes. Enfim, todos que esperam o ano todo por essa festa, onde irão recarregar as energias ou apenas descarregar o que faz mal.
Sabe, eu acho meus textos tão banais ultimamente. Falo sempre das mesmas coisas. Por exemplo, do meu trabalho que não é tudo o que a faculdade pintou, da minha solidão, da minha falta de vontade para tudo, do meu desgosto.
Queria poetizar, escrever a simplicidade da vida e fazer alguém se emocionar. Terminar um texto e lê-lo vinte vezes depois, de tão fantástico que ele saiu. Colocar no papel cada detalhe, para que quem leia consiga sentir o cheiro do ar que mistura mato orvalhado e poeira, ou o gosto que a saudade coloca na boca da gente. Ando velha e seca, improdutiva. Será que todo poeta tem uma fase de entressafra na plantação de letrinhas? Será que está chovendo demais para florescer a criatividade e a destreza mental? Ora, eu poeta! Sou tão pequenininha, tão ínfima.
Bom, mesmo assim, eu não consigo falar de outra coisa que não seja a minha vida. Se um dia me perguntarem qual é a minha linha, meu tema preferido para escrever, direi que sou eu mesma. Por mais que talvez, às vezes, eu não me pareça interessante suficiente para estar no papel, eu sei que sou capaz de desenhar a minha existência de uma maneira simples, sincera, instigante, meramente atraente e digna para que vocês, caros leitores, doem um pouquinho do seu tempo para me ler. Não só meus escritos, mas a minha pessoa também. E tirar as suas próprias conclusões, é claro.
Então, minhas viagens de Ouro e Prata estão acrescentando um monte para a minha bagagem cultural. Não sei ao certo se eu sou uma pessoa que inspira confiança, ou se as pessoas que frequentam uma rodoviária têm por instinto iniciar uma conversa trivial, sem mesmo eu ter perguntado nada. Fico sempre quietinha, na sala de espera. O cara que cuida lá a sala de espera – não sei qual é bem certa a função dele – sabe sempre qual é o meu destino. Ele abre a porta, me olha e diz: Palmeira das Missões! O motorista já virou meu amigo, dizendo que já fazia algumas semanas que eu não viajava com ele.
Os viajantes entram no local, sentam e já vão logo começando o bombardeio de perguntas. ‘Para onde você está indo?’, dizem eles. Assim conheci um caminhoneiro que transporta cargas valiosíssimas e que teme passar com cigarros ao lado do Complexo do Alemão.
Conheci o carinha que trabalha na gráfica do Correio do Povo, que me deu uma aula de impressão e que ganha mais que eu que trabalho para que as páginas do jornal não saiam em branco. Este tem apenas nove dedos e adora astrologia e me deu uma aula sobre o assunto também. O primeiro passo é sempre deles, mas daí meu instinto de repórter investigativa vem à tona e eu começo uma batelada de questões.
Neste último final de semana conheci um senhor aposentado que me contou que estava indo para o desfile de carnaval no Rio de Janeiro, que tinha parentes na cidade e que estes já haviam comprado seu ingresso que custou R$ 1mil. Ah, ele me disse também que só carregava R$ 500 na carteira, para o caso de ele ser assaltado não levarem tudo o que ele tem, coitado.
E é isso. Sigo meu rumo agora, pois a quarta de cinzas é o primeiro dia do ano para nós brasileiros. Sigo, convivendo com a arte de tocar a realidade com a ponta dos dedos, entremeio a narizes empinados, pobres descalços, corpos sem vida, denúncias, fontes oficiais e populares. A sutileza da vida encapada com recortes de jornais. A inconstância de estar em todos os lugares, envolvido com temas distintos e muitas histórias de vida emocionantes. A pressão do fechamento das páginas, que imponentes e limpas nos desafiam. E claro, a insatisfação com os proventos.
O ano ‘inicia’ e as mazelas continuam as mesmas. E a minha vida banal também.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Brain Storm

Está é a quarta vez que inicio o texto desta postagem. Hoje não é um bom dia para o ‘toró de ideias’, mas sinto uma vontade imensa de me expressar. Gostaria que alguém me ouvisse. Então se eu gritar, me de um colo e me faça dormir. Quero sossego.
Atualmente minha vida anda sem muitas emoções, como uma cena congelada em preto e branco. Os dias passam e a vida viaja no piloto automático. Não temos curvas no caminho, é apenas uma estrada reta, deserta e quente. E dizem ainda que ela será muito longa.
Durante esta vida já fui vários personagens. Já atuei em vários palcos. No início era cinza, falava pouco, ouvia atrás das portas. Era inverno, frio e chuvoso. Nessa época eu era poeta e via desenhos na tinta descascada da parede de madeira. As vozes em todas as bonecas eram as mesmas – a minha. Mas, o sol foi timidamente entrando pelas frestas da casa e aos poucos outras vozes preencheram o espaço inerte.
Foi então que veio a estação dos lírios, com temperaturas amenas e dias salutares. Existia receio, pois os ventos mudaram bruscamente e eu não tinha um porão para proteção. Em uma tarde branda, embaixo de uma bergamoteira, peguei no sono e de repente comecei a sonhar...(...)... Era óbvio que era perfeito demais. As fotos coloridas desbotam com o tempo, todo bom observador sabe disto. Mas como eu sempre estava aérea demais para perceber, só fui compreender a efemeridade quando uma bergamota podre caiu na minha cara e eu acordei.
Porém, o verão anunciou sua chegada, e ele conseguiu maquiar o roxo no meu rosto. O calor trouxe consigo o ápice da juventude. Introspectiva ainda, mas aos poucos a palavra cativava timidamente.
Hoje é outono, apesar de não parecer ser. O verão partiu e a estrada acabou. Infelizmente com o passar das luas as pessoas mudam muito. Eu também mudei. O filme está sem cor. Em contrapartida, agora as consoantes perambulam, rebatem nas paredes e ecoam. O meu grito rola estridente pelas pedras da calçada. A bergamoteira está desfolhada e eu infeliz. Sentada embaixo dos galhos secos eu espero pela estação das flores...(...)...

'Moça, Olha só, o que eu te escrevi
É preciso força pra sonhar e perceber
Que a estrada vai além do que se vê

Sei, que a tua solidão me dói
E que é difícil ser feliz
Mais do que somos todos nós
Você supõe o céu...

Põe mais um na mesa de jantar
Porque hoje eu vou "praí" te ver
E tira o som dessa TV
Pra gente conversar...
E avisa que eu só vou chegar
No último vagão

É bom te ver sorrir
Deixa eu ver à moça
Que eu também vou atrás
E a banda diz: - assim é que se faz.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Carolina

Composição: Chico Buarque

Carolina, nos seus olhos fundos guarda tanta dor, a dor de todo esse mundo
Eu já lhe expliquei, que não vai dar, seu pranto não vai nada ajudar
Eu já convidei para dançar, é hora, já sei, de aproveitar

Lá fora, amor, uma rosa nasceu, todo mundo sambou, uma estrela caiu

Eu bem que mostrei sorrindo, pela janela, ah que lindo
Mas Carolina não viu...

Carolina, nos seus olhos tristes, guarda tanto amor, o amor que já não existe,
Eu bem que avisei, vai acabar, de tudo lhe dei para aceitar
Mil versos cantei pra lhe agradar, agora não sei como explicar

Lá fora, amor, uma rosa morreu, uma festa acabou, nosso barco partiu

Eu bem que mostrei a ela, o tempo passou na janela e só Carolina não viu.



*Errata:
Onde se le Carolina, le-se Priscila.